Ai de ti, Barcarena

 

Barcarena é uma bomba de efeito retardado.

 

Só não vê essa grave realidade quem é desinformado ou não quer ver. Ou, principalmente, quem contribui para essa criação maligna. À frente de todos, os governos, todos eles: federal, estadual e municipal. Quando essa bomba é acionada e mostra a sua cara há gritaria e correria em geral, como se todos fossem inocentes. Não há inocentes nem heróis nesse enredo.

 

Como as explosões são (ainda) localizadas, logo passa o choque e o susto. Tudo volta a ser como antes no quartel do Abrantes. Neste momento, tendo como plantonista o economista (ó ironia!) Simão Jatene, aquele do discurso etéreo das cadeias produtivas, da verticalização da produção, da geração de renda e emprego, cantochão monótono de todas as lideranças paraenses.

 

Até que o acidente resulte numa tragédia – quando o leite (na forma de rejeitos de bauxita e caulim, fora outros componentes de menor volume) estará definitivamente derramado. E a Inês cabocla, morta.

 

Esta bomba em crescimento é formada por milhões de toneladas de rejeitos, acumulados há quase três décadas, da lavagem de dois minérios: a vermelha bauxita (para chegar até a forma definitiva no local, o alumínio metálico, avançando pouco na escala da transformação industrial) e o branco caulim (usado principalmente para recobrir papéis especiais, como o das sedosas páginas das revistas).

 

As barragens de contenção dessa massa, contaminada por produtos químicos, como o chumbo, se elevam por quase 30 metros, contidas por barragens de terra. Numa área de chuvas intensas em metade do ano e terreno plano, os cuidados teriam que ser redobrados.

 

O padrão de qualidade e segurança teria que ser superior ao da Noruega, onde fica a sede da Norsk Hydro, dona da Alunorte (e da Mineração Paragominas, a segunda maior produtora de bauxita do país) e da Albrás (a oitava de alumínio primário do mundo, primeira do continente). As condições ambientais de Barcarena são mais desfavoráveis a essa atividade produtiva do que as da Noruega.

 

No entanto, o laudo do Instituto Evandro Chagas, divulgado ontem, causa choque e indignação quando diz que a empresa não tem um plano de emergência. Mas não é só descuidada ou negligente. Age de forma deliberadamente fraudulenta ao instalar um dreno clandestino para drenar para fora da área da fábrica rejeitos que se acumulam internamente. Isto é crime. Se a Norsk não se explicar convenientemente, deve ser punida com o máximo de rigor.

 

Pode sofrer multa milionária, como já aconteceu em outros acidentes, causados por ela e seus vizinhos potencialmente (e efetivamente) poluidores. Se pagar, voltará a reincidir no erro porque, segundo o laudo do Evandro Chagas, o volume de rejeito supera a sua capacidade de tratamento. Como isso aconteceu se há órgãos oficiais monitorando o local? Ou não há? Ou há omissão e até conivência?

 

Independentemente dos componentes humanos do problemas, há uma avenida para que eles se expandam: a omissão do poder público. Com portos de exportação em atividade intensa, grandes unidades produtivas agressivas concentradas em espaço diminuto, proximidade de atividades industriais de agrupamentos humanos dispersos e mal atendidos, um circular de veículos que desafia a precária estrutura viária e muitos outros fatores, há anos a elaboração e implantação de um plano diretor para Barcarena dorme na boa intenção de algum servidor público.

 

O distrito industrial continua a receber novos empreendimentos, que vão se acomodando conforme o próprio interesse dos empreendedores, que se baseiam no critério do maior lucro e das facilidades, concedidas por critérios nem sempre conhecidas ou deduzíveis.

 

O próximo projeto é o de uma grande usina de energia a gás natural. A Secretaria do Meio Ambiente do Estado já está preparando a audiência pública para licenciar a termelétrica o mais rápido possível.

 

O que querem de tudo isso, uma sucessão de falhas e erros motivada pela geração de dinheiro – por caixa um e caixa dois – que colocou Barcarena entre os cinco municípios que mais arrecadam no Pará. Pensar a curto prazo e pelo benefício apenas dos que podem decidir, decidindo pela cumplicidade com essa bomba de criação coletiva e ameaça ainda mais coletiva, é o castigo dado a Barcarena.

 

Ai de ti, Barcarena.

 

FONTE: https://lucioflaviopinto.wordpress.com/

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